Dia Seis

295 days ago

É fantástico, já vou no dia 6 e continuam aqui a ler, não tem mais nada que fazer, pois não? Vão lá trabalhar!
Digo-vos, já nem sei o que vos escrever, que raio de voyeurismo vem a ser este?
Era uma vez uma bela montada vermelha com o seu fiel viajante, ou então ao contrário, era um belo viajante com a sua fiel montada vermelha. Não interessa, ao sexto dia saíram os dois bem cedo de Toledo, foram juntos atestar o tanque e seguiram viagem, com o sol a nascer pelas costas, os quilómetros iam passando, as curvas aparecendo e eis que se não quando aparece uma daquelas estradas de montanha, sempre bem finas no mapa, e há já muito ansiada! Agora impõe-se uma interrupção, ao partir ainda não tinha definido onde iria passar a noite, se em casa, Cáceres, ou algures pelo caminho, e havia no mapa uma longa estrada que percorria os Montes de Toledo, algo me dizia que deveria ser uma estrada magnífica, mas as temperaturas baixas, o alcatrão molhado e a indecisão do destino da etapa do dia fizeram-me escolher outro percurso. No meu mapa, as estradas brancas, são por norma magníficas, mas já se encontram bastante degradas, sujas e…divertidas! Só dão vontade de voltar para trás e fazer tudo de novo! Há que salientar, que apesar de a minha montada ser tipicamente de estrada e cidade, se porta muito bem por estes caminhos, dando para desfrutar em pleno estes percurso! Podemos ficar por aqui.
Na Extremadura vi finalmente vacas, bois, touros, ovelhas e cabras, pelo resto do país tinha visto mais cegonhas e andorinhas, que também me acompanharam hoje… Para os que não se lembram, este é um pormenor muito importante, enquanto no resto do passeio sentia apenas o cheiro e via apenas os sinais, foi finalmente tempo de ver os bichos! Por falar nisso, os espanhóis têm uma fixação pelo Bambi, não há estrada em que não apareça escarrapachado num triângulo vermelho, sempre a pular, sempre a saltar, é assim mesmo Bambi!

Tenho ar de quem está a brincar?
Vou mesmo ficar por aqui, Cáceres fica perto, se quiserem ver como é podem passar por lá…
Regressar a Portugal tem um sabor estranho, o saber que a viagem está a chegar ao fim, que vamos acordar em casa, sem destino para o dia seguinte…
Para compensar o céu estava muito bonito ao chegar a Lisboa pela Ponte Vasco da Gama, a brilhar por trás de uma enorme nuvem estava o sol radioso!

Pata

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Dia Cinco

299 days ago

Ah, nem imaginam como é divertido escrever diários de viagens, são de uma imprevisibilidade estonteante, mas não me vou queixar, nem vou inovar, vai mais do mesmo que é para não ficarem mal habituados.
Melhor, vamos fazer um jogo, tentem adivinhar o que eu vou escrever a seguir, se acertarem bom para vocês!
O dia começou de manhã, bem cedo, mas já com luz do dia, o pequeno-almoço foi tomado calmamente na sala comum do hostel. Nada melhor do que comprar o pequeno-almoço no dia anterior para não andar à rasca à procura de comida. Lavadas as mãos chegou a altura de verificar o mapa, escolher o destino e tentar perceber como é que se saía de Valência, direcção, não queria cá o caminho exacto, que era certo que me iria perder ao virar da primeira esquina. Uma ou duas referências chegam, mais que isso dá asneira.. Claro está que para variar os espanhóis andaram a comer indicações em cruzamentos chave, quando é para ir sempre em frente enchem-me aquela porra de sinais, quando é para virar vou ali e já venho… Curiosamente voltei a não me perder hoje, para compensar, que neste país as cosias funcionam assim, choveu boa parte do caminho e quando não choveu esteve o céu cinzento escuro, o vento foi também presença constante, ou não estivesse eu a atravessar terras de D. Quixote! Tenho escolhido estradas secundárias, são sempre as melhores, com mais curvas, que passam por locais mais isolados, menos civilizados, é sempre giro passar por aldeias no meio de nenhures, em qualquer parte do mundo! Mas não era isto que vos queria dizer, nestes dias de chuva o interior de Espanha é desolador, não pelas ermas localidades, mas pelo estado de degradação, de abandono, de pequenos aglomerados de populações, outrora visivelmente cheios de actividade e que hoje parecem cidades fantasma. Brrrrr… Sair da agitação de Valência e passar por estes sítios mexe comigo, sei que também é influência das saudades de Andorra, cada vez maiores, e da cor do céu, mas se nos primeiros dias conseguia atravessar estes cenários sem que a tristeza dos locais me tocasse, agora o mesmo não se passa…
Vá, consegui chegar a Toledo num instante, com o tempo vai-se ganhando o jeito… Vir a Toledo em época baixa é como ir ao Algarve, só com a diferença de não haver praia e ser só uma cidade e não uma região inteira. São poucos os turistas pelo centro histórico, as lojas que estão abertas, andam a meio gás, alguns habitantes locais vão às compras à Zara e essas lojas que há por todo o lado, passeio-me pelas ruas sem destino, é como andar num labirinto, cheio de oponentes edifícios, igrejas, sinagogas, coisas históricas e deveras interessantes, tudo arranjadinho, ou mais ou menos, se quiserem fotos vão à internet que concerteza terão melhores do que as que eu tirei, além de que só tirei a coisas que não iria conseguir achar na internet! E já era tarde, a luz não estava grande coisa e não vim para tirar fotografias, agora não me chateiem mais com a história das fotos, pode ser? Andei um bocado perdido, mas sem nunca o perceber, ou sequer admitir, havia de conseguir sair dali eventualmente, mas era rapaz para ter medo de passar naquelas vielas à noite. Dei por mim a pensar, antigamente o pessoal era capaz de sair de casa de manhã e à noite não conseguir dar com o sítio, entrava-se num prédio qualquer e começava-se a estranhar, isto não é a minha família, a mobília também não é a mesma, mas com o cansaço vai ter que servir, Oh Maria, o que é o jantar hoje? As mulheres também já estavam habituadas e todos os dias tinham gente diferente lá em casa, nem os filhos eram os mesmos! Receio ter sido um pouco sexista agora, mas assim a história fica mais gira… Outra coisa, nesta terra é fartar vilanagem à conta do Don Quixote, lojas, lojecas e coisas que tal, e é um fetiche por armaduras, facas e espadas que me faz um bocado confusão! Se as armaduras fossem práticas e confortáveis ainda se usavam hoje em dia, não acham? E aquelas espadas e punhais? Primeiro aquilo nem deve cortar, ponto segundo, deve pesar como ó raio, ponto terceiro, para quê? A sério? Por isso é que se aproveitam do Don Quixote, caso contrário tinham vergonha de vender aquelas coisas, vendiam os souvenires do costume, que esses ainda dão para esconder na gaveta…
Sabem que há um MacDonalds no centro histórico de Toledo? E um Café di Roma? Ah pois é verdade! Parece que estou a falar de Toledo como se fosse a parvónia, paciência, agora não vou emendar isto… Também há um circo aqui no burgo agora, mas não me parece que o vá visitar… E há um Dönner Kebab que leva comida a casa, a sério, quem é que quer take-away de um Dönner? Aquilo é para se comer na rua e sujar tudo, ninguém quer andar a chafurdar naquilo em casa, correndo o risco de sujar o sofá! Quem é que tirava as nódoas depois?
Tenho a certeza que falta mais qualquer coisa, mas agora não me lembro, paciência! Já me lembro, vi um turista que era tal e o qual o professor Miyagi!
Outro aspecto deveras importante, os sinais sonoros para os peões atravessarem a estrada parecem pássaros, piriquitos, ou coisa que o valha! Estava eu a meio da tarde a atravessar a rua, quando dei por mim a pensar, Ena, ena, que cidade tão tranquila até se ouvem os pássaros a cantar… Escusado será de dizer que mais tarde me apercebi que eram os sinais de trânsito, se eu tivesse uma coisa daquelas perto da minha janela era pessoa para me chatear bastante e ir lá vandalizar aquilo!

Pata

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Dia Quatro

302 days ago

O dia 4 foi um dia triste, para começar mesmo à maneira a moto pegou logo, sem coisas, sem palermices, eu que já estava a preparar-me mentalmente para que o frio de Andorra fizesse das suas, nada, foi logo! Fiquei sem desculpas para ficar lá por mais uns tempos. Depois o Abdiel lembra-se de dizer que para a próxima tenho que ir a França, olha obrigadinho, ‘tá? Achas que não tenho vontade de seguir caminho para França? Agora fizeste-me pensar que estou a voltar para casa, não gostei, não gostei! Queria ficar, não queria partir, e o céu iria reflectir todo o dia o meu estado de espírito, cinzento! Agora vamos lá voltar para trás, já conheço o caminho, não há muito que enganar. Na fronteira felizmente não me mandaram parar, se descobrissem que trazia o tanque cheio de gasolina, ainda me metiam na choldra por contrabando. É que a diferença de preço do combustível não é brincadeira nenhuma.
Estava eu a dizer que não havia que enganar, e não havia mesmo, foi dos dias em que menos vezes consultei o mapa, o que tirou um bocado da piada à coisa, por momentos pensei que nem estava em Espanha, não me enganei no caminho uma única vez! Isto estava a ser tudo muito bonito, estava mesmo, até chegar a Taragosa, depois a estrada que pensava ser uma coisa assim bem bonita junto ao mar revelou ser um caminho de camiões, ora uma pessoa não sei quantos dias (quatro) a conduzir por estradas desertas, fossem de montanha, na planície ou no raio que o parta, para chegar aqui junto ao mar e levar com cento e cinquenta(150) quilómetros de camiões, não há direito! Foi ai que comecei a perceber que realmente ainda estava em Espanha, deixam-me acertar com o caminho todo, mas tenho uma penalização de um terço do caminho com camiões a perder de vista. Ao olhar pelos espelhos nem vontade dava de parar, tal era a horrenda visão dos “trailers” como se diz por aqui. Chegado a Valencia nem foi muito complicado dar com o centro da cidade, só é preciso ter um pouco de imaginação para adivinhar onde deveriam estar as indicações que faltam, são poupadinhos os filhos da mãe, mas a mim já não me enganam, já os topei. É giro o trânsito, não é agressivo, é apenas um caos ordenado, de peões, bicicletas, motos, carros, autocarros, essas coisas… Alguém cruzar cinco faixas depois de arrancar ainda com o sinal vermelho é algo de perfeitamente natural, não o fazer é que é estranho. Encontrado um sítio para pernoitar, estava na hora de ir buscar o veículo, não sei o que meti na topcase, mas aquela porra está pesada, devem-me ter andado a pôr chumbinhos na mala… Agora era hora da banhoca, vamos lá ver se têm água quente para o motociclista, que andou todo o dia à mercê das condições atmosféricas, desde os 2ºC negativos de Andorra, até aos 17ºC de Valência, de umas chuvas por umas terriolas no caminho, e vento todo o dia, sempre a mudar de direcção para dar emoção à viagem e agitar as ideias. O que têm os espanhóis valencianos para os viajantes? Água morninha, também deve ter sido castigo por não me ter enganado no caminho e por me ter orientado dentro da cidade. Ia cometer uma grande injustiça, pois já tomei banho em dois sítios de Espanha e sempre tive água quentinha, em Andorra também, mas aquilo não é Espanha!
Aqui o vosso amigo, ou conhecido, como preferirem, estava com fome, não muita, mas alguma, não comeria tudo, mas estava pronto para comer comida típica se fosse preciso. Ainda passei por um Starbucks, mas para beber café mau e bolos assim-assim, mais vale ir a um café espanhol, que ao menos são honestos e não fingem que se preocupam com o café e servem-nos directamente a água que os clientes usam para lavar as mãos, se calhar é melhor não generalizar, nem todos os sítios são assim, há estabelecimentos em que existe a preocupação de aquecer a dita água antes de a servirem… Fiquei todo contente por não me deixar enganar pelo Starbucks! Escolhi um estabelecimento que tinha cá fora anunciado um prato de lasanha caseira por 5 euros, só podia ser bom, ou então só podia ser uma porcaria, claro que também podia ser um congelado do Marco Bellinni… Não cheguei a saber, o empregado fez questão de me informar que a paelha era caseira e estava muito boa, fiz-me de parvo e disse que não tinha percebido, se era a lasanha que estava muito boa, ele estava atento e disse, estão as duas coisas muito boas, eu não insisti mais, quando o empregado diz que algo está bom e se recusa a mencionar o nosso pedido, é porque deve estar uma porcaria e ele nem se atreve a servir-nos aquilo! De qualquer forma não vale a pena arriscar, provavelmente a coisa está mal cozinhada, o empregado fica aborrecido por não seguirmos o conselho dele e ainda nos acaba a cuspir no prato. Com que ficamos no fim? Uma lasanha ressequida com um pouco de cuspe do garçon, não obrigado, vamos lá provar a paelha! Lembram-se de eu ter sido muito esperto com o Starbucks? Aqui cometi um erro de principiante, em Espanha nunca se pede uma cerveja sem antes procurar saber que mixórdia nos vão servir, acham que prestei atenção? Não! Pedi e depois comecei aflito à procura de pistas para saber o que me ia calhar, desta vez tive sorte, mas para a próxima não sei o que me pode acontecer!

Pontos positivos: Não me perdi; Estradas de montanha muito giras, com muitas curvas; Acompanhar o rio Ebro; A paelha estava boa e barata
Pontos negativos: Não me perdi; Camiões a perder de vista depois de fazer estradas muito giras; Ir embora de Andorra; Ir embora de Andorra em direcção a Portugal; Chuva; Céu cinzento; Sou difícil de aturar

Eu acho que falta qualquer coisa, mas agora estou com muito sono e tenho que ir escrever o dia 3!

Pata

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Dia Três

306 days ago

Não há dia 3, estava na conversa com o Abdiel e o seu amigo que é ajudante de cozinha no hotel ao lado. Estava também a beber os restos de cerveja da festa de anos do Abdiel, o que é sempre simpático.

O dia 3 foi muito bom, gostei muito!!!

Podemos começar pelo princípio, o dia 3 começou com alguém a falar muito alto no quarto a meio da noite e a acender a luz, o que vale é que acho que toda a gente estava com muito sono naquele quarto, senão o rapaz tinha levado uma pantufada que era para aprender a estar caladinho e a não acender a luz enquanto os outros dormem, palhaço! Depois disso acordei, vesti-me sem acordar ninguém tirei as coisas do quarto e trouxe tudo cá para fora para arrumar em condições. Não sei se já vos disse que trouxe demasiadas coisas, se calhar digo depois, agora estou com sono.
O dia 3 começou por ser o dia do cócó, ou da caca, como preferirem, é que ao sair de Zaragoza não me cheirou a outra coisa que não fosse a vacas, mas foi assim até Andorra, e tenho a certeza que não pisei nada. Presumo que tenha atravessado uma parte bastante rural do país, pela paisagem, pelo cheiro, pelos tractores e pelos milhares de sinais, porque animais nem vê-los! Acho que é tudo uma conspiração, têm o cheiro, têm a sinalética, mas animais está quieto, é tudo a fingir! Acabei por só ver vacas em Andorra, e lá não cheirava a nada…
Lá está, consegui sair bem da cidade, mas ao fim de 30 quilómetros percebi que estava a ir mais para norte do que desejava, isto porque li o nome de uma cidade no mapa que me parecia ser na estrada que eu queria, só que a bolinha estava na estrada de cima e não na de baixo, o que vale é que não perdi muito tempo e ainda deu para fazer uma estrada de ligação mesmo à maneira, deserta, rodeada de verde e bem asfaltada! Seria a única argolada do dia, tirando outra situação que passo a relatar. Em Espanha existe uma forte rivalidade em localidades vizinhas de tamanho e importância semelhantes, que se revela nos sinais de trânsito. Jamais poderá existir uma indicação concreta para uma localidade rival, existe apenas uma única e é totalmente vaga, tanto que aos nossos olhos até poderia ser o equivalente a voltar para trás e fazer a dança da chuva! Perceberam? Não? Então é assim mesmo que se fica quando se vê o dito sinal, não se percebe bem para onde é, há que adivinhar… Isso deixa-me aborrecido, perder tempo às voltinhas não é nada agradável e torna-se cansativo, portanto espanhóis, se me estiverem a ler, deixem-se lá de coisas parvas e indiquem os caminhos aos utentes das estradas.
Tirando as minhas resmunguices, foi um dia mesmo muito agradável, a chegada a Andorra é algo de espectacular, mas antes de mais tenho que colocar aqui uma questão muito pertinente. A capital é um shopping center ao ar livre ou é impressão minha? Um gajo vai para as montanhas, ar livre, ski, caminhadas, snowboard, passear, descansar e só se vê trânsito e gente nas compras assim que chegamos? Péssimo cartão de visita, com tanta coisa linda para ver!
Zaragoza e Andorra foram os meus dois únicos pontos de passagem em que tinha reservado um sítio para passar a noite, não me apetecia chegar a um mini-país e dormir na rua, ainda por cima tinha neve e estava frio. Foi uma agradável surpresa, um sítio bastante familiar, sossegado e o anfitrião era um gajo muito porreiro, era o Abdiel, que é do Panama e tem ali o seu negócio, acabei por ir jantar com ele e depois ficámos na sala comum a beber cervejas com o amigo que é ajudante de cozinheiro no hotel do lado e que nem sequer sabe fazer arroz… Lava pratos e corta vegetais, diz ele. Para quem gosta de estradas bonitas, com vistas deslumbrantes a travessia do Col d’Ordino é obrigatória, pena ainda ter algum gelo nas zonas onde o sol não bate e não dar para percorrer mais à vontade, mas corta-se caminho de Ordino até Ransol e quase não nos cruzamos com ninguém, totalmente o oposto do caminho que passa por Andorra la Vella, o caos!

Pata

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Dia Dois

309 days ago

Para começar bem o dia não estava ninguém na recepção do sítio onde fiquei a dormir, podia levar a chave comigo, nunca se sabe quando é que nos vai fazer falta uma, ou deixar por lá, não no balcão, porque não existia, mas simplesmente lá pela entrada, junto a uma janela… Pergunto-me se já a encontraram… Acho que vou voltar atrás só para ficar a saber!
Perguntam-me pois, então porque é que isso é má forma para começar o dia, eu digo-vos, quando cheguei à moto, que ainda estava no mesmo local onde a havia deixado, comecei a preparar tudo, mala do depósito, top case(ou bagageira), cadeado, luvas, passa-montanhas, capacete, ligar a dita… ligar… ligar… Olha, mas esta porra não arranca? Deve estar com frio… Mas ora f%$#* eu também tenho frio e levantei-me da cama!! Às vezes quase que arrancava mas nem tempo tinha de tocar no acelerador, sim não tenho cabo do ar… Sou forreta, ok? Mas posso-me queixar na mesma quando as coisas não funcionam, ou não? Lá começo a subir a rua, a ver se depois a conseguia descer e pegar de empurrão, mesmo sendo de sentido único, como podem ver já estava por tudo, numa madrugada de domingo em Espanha acho que não poderia estar de outra forma… Mas não se pode desistir, e duas tentativas depois estava ligada!!! Espero que me consigam imaginar todo contente e com mil cuidados para não deixar o motor ir abaixo, mas lá aqueceu e seguimos viagem até à bomba de gasolina mais próxima, onde já pegou sem problemas!
Tenho-vos a dizer, de manhã, no meio da porra do deserto espanhol, faz um frio de rachar, mas daqueles upa upa, felizmente ia bem agasalhado e só tive frio nas mãos, no próximo inverno se for viajar compro uns punhos aquecidos, é que aquilo doía nas unhas e tudo! Foi coisa rápida, um segundo pequeno almoço ao sol e o frio já não quis mais nada comigo o resto do dia. E falando em segundos pequenos almoços, no dia um fui comprar umas coisas ao supermercado que pareciam aqueles folhados de maçã que se vendem no nosso país, mas não sei porquê, muito provavelmente para enganar as pessoas e depois rirem-se às escondidas, os espanhóis metem atum e tomate ou algo parecido, aquilo é uma pasta estranha como as “empanadilhas” que se vendem nas áreas de serviço em Portugal. Provavelmente já vos aconteceu, meterem uma coisa à boca à espera de ser doce e afinal é salgado (vá, façam lá as vossas piadinhas todas agora, depois acabou o tempo), é muito estranho e é de muito mau gosto quando estamos a falar do MEU pequeno almoço! (Algures está um espanhol a rir-se, filho da mãe) O meu segundo pequeno almoço já foi melhor e envolveu bolachas de chocolate, ai os espanhóis já não se metem a brincar… É caso para dizer que estes gajos não levam assim a comida muito a sério, nem a saúde, nem respeitam as pessoas que querem comprar coisas doces para o pequeno almoço…
Hoje fiz 36 quilómetros numa estrada espectacular, escolhida por teimosia, depois de uma paragem estratégica para lanchar. Estreita, em mau estado mas sem buracos, deserta, curvas, curvas, curvas, sempre com uma paisagem deslumbrante e a passar por duas aldeias no meio do nada, isto a uns míseros 55 quilómetros de Zaragoza! Não vos vou descrever a sensação, nem explicar que foi por estes momentos que tirei a carta e comprei o veículo, porque agora estou com preguiça, também posso não?
De registar também a redução abismal do tempo em que hoje andei perdido, sendo que o único problema mesmo foi encontrar o hostel de onde agora vos escrevo!

Pata

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